quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Velha História - Mário Quintana

"Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!..." Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado..."
(Quintana, 1976, p. 105)

http://www.entrelinhas.unisinos.br/index.php?e=6&s=9&a=42



Não sei bem como cheguei até este site. Acho que fui clicando, clicando e clicando naqueles links que geralmente ninguém percebe e encontrei um artigo interessante.
Adivinhem sobre o quê. Surrealismo na poesia de Quintana. Engraçado as coisas que avistamos nas esquinas da vida.
Mas, seja por destino ou qualquer coisa do gênero, li o artigo e achei interessantíssimo este poema em prosa que era analisado. Uma coisa meio lúdica, meio destoada, meio maravilhosa. Acho que isto entra na Lista de Coisas Que Lerei Para Meus Futuros Filhos.
Ou pro gato de estimação, se ele gostar de algo mais contemporâneo do que Nietzsche.

3 comentários:

Anônimo disse...

Para ter Mário aos ouvidos também!
http://www.youtube.com/watch?v=9WYLiL2mXy4

Anônimo disse...

muito bom parabéns pelo site

Um segundo olhar sobre tudo disse...

Adoro esse poema, me faz lembrar da escola e da época de criança